domingo, 14 de dezembro de 2025

Um diálogo com estranhos

 Lições inesperadas...

 

Há dias em que a cidade baixa a voz. Não proclama urgências nem exibe certezas. Limita-se a respirar devagar, nos interstícios do ruído. É nesses espaços — frágeis, quase invisíveis — que os estranhos se aproximam. Não trazem nomes nem histórias completas, apenas frases breves, deixadas como quem pousa a mão num ombro e segue caminho. Ainda assim, ficam. E fazem morada.

 O banco do jardim

Está à espera de alguém? — perguntei, sentando-me ao seu lado.

O homem sorriu com a economia dos que já disseram muito.

Estou à espera que o tempo passe. Às vezes faz-me companhia.

O silêncio instalou-se entre nós como um acordo tácito. Um pombo ensaiava passos incertos, e o vento folheava as árvores, à procura de um sentido esquecido. Ao levantar-se, disse apenas:

A pressa é um relógio que não diz a verdade.

Fiquei a pensar que esperar também é uma forma discreta de chegar.

A fila do café

Isto nunca anda quando estamos com pressa... — murmurou a mulher à minha frente, fitando o balcão com impaciência cansada.

Talvez o café nos esteja a ensinar a respirar. — respondi, surpreendida pelas minhas próprias palavras.

Ela riu-se, breve.

Então que venha forte.

Quando recebeu o copo, virou-se ainda:

Respirar é um gesto que raramente agradecemos.

Saí com o café quente e a sensação de que os atrasos mínimos salvam dias inteiros.

O autocarro das sete

O rapazinho chutava o vazio, a disputar um jogo invisível. O pai, cansado, deixava os olhos correrem pela paisagem como quem procura respostas no movimento.

Ele vai ser jogador... — disse, mais desejo do que previsão.

Ou poeta. — acrescentei, quase num sussurro.

O pai voltou-se para mim.

Os poetas também se cansam?

Cansam-se de outra maneira.

Ele assentiu, como quem reconhece que nem todas as vitórias sabem a aplauso.

A pequena livraria

Procura algo em particular? — perguntou o livreiro, com as mãos marcadas pelo pó das páginas.

Algo que me encontre. — disse.

Sem hesitar, entregou-me um livro fino.

Este não explica nada. Limita-se a acompanhar.

Na primeira página, um sublinhado antigo murmurava: não tenha medo de não compreender. Fechei o livro com cuidado. Há verdades que pedem apenas companhia.

O elevador imóvel

Parece que ficámos presos. — comentou a vizinha do quinto andar, apertando os sacos das compras.

Ou convidados a parar. — arrisquei.

Ela suspirou.

Se for um convite, espero que inclua café.

Rimo-nos. O elevador retomou a subida. Aprendi que o riso, às vezes, é a única escada que não falha.

A chuva

Sob a marquise, um desconhecido abriu espaço debaixo do guarda-chuva.

Cabe mais um mundo aqui. — disse, ajustando o pano.

Caminhámos alguns quarteirões sem trocar nomes. Ao despedir-se, deixou-me isto:

A chuva é o céu a ensaiar a queda.

Cheguei a casa com os ombros molhados e o pensamento cheio.

A feira de domingo

Escolha pelo cheiro. — aconselhou a mulher das laranjas.

E quando o cheiro engana?

Aprende-se a escolher outra vez.

Levei as laranjas e uma autorização silenciosa para falhar.

No fim, compreendo que estes encontros não pedem memória oficial. Não reclamam datas, fotografias nem continuidade. São instantes soltos que, juntos, compõem uma música baixa. Um diálogo com estranhos é, talvez, a forma mais íntima de conversar com o mundo — não para obter respostas, mas para afinar a escuta.

Continuo a andar devagar, atenta. Porque a vida, quando encontra quem saiba ouvir, fala.

 

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